domingo, 14 de novembro de 2010

Péricles Maranhão




Entre outubro de 1943 e fevereiro de 1962, um desenhista se destacou através de um personagem irônico, aparentemente gentil e simpático mas que era insensível ao sofrimento dos outros. O desenhista foi Péricles de Andrade Maranhão (1924-1961) e seu personagem, o Amigo da Onça, que divertiu muitos brasileiros entre as décadas de 40 e 60.

Péricles Maranhão, nascido em 14 de agosto de 1924, já trabalhou na imprensa de Recife, Pernambuco, sua cidade natal, quando chegou ao então Distrito Federal, o município do Rio de Janeiro, por volta de 1941. Em Recife, ele havia estudado no Colégio Marista e na imprensa foi chargista do Diário de Pernambuco.

Chegando à sede dos Diários Associados, então o mais poderoso grupo de comunicação do Brasil, foi apresentado, mediante carta de recomendação (Péricles era ainda menor de idade) ao chefe Leão Gondim de Oliveira, um dos braços direitos do "velho capitão" Assis Chateaubriand.

Tornando-se o mais jovem funcionário dos Associados e integrando na empresa uma geração de jovens funcionários, Péricles estreou como chargista do Diário da Noite, criando seu primeiro personagem cômico, chamado Oliveira, em 06 de julho de 1942. Era desenhista habilidoso, que nos tempos de colégio imitava os desenhos de Dick Tracy, Agente Secreto X-9 e Flash Gordon.

O Amigo da Onça surgiu não por iniciativa de Péricles, mas de Leão Gondim. Foi a partir de uma famosa piada da época, envolvendo dois caçadores. Dizia a piada:

Dois caçadores conversam em seu acampamento. Um disse para o outro:
- O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
- Bom, então eu matava ela com meu facão.
- E se você estivesse sem o facão?
- Apanhava um pedaço de pau.
- E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
- Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?
O AMIGO DA ONÇA TORNOU-SE CÉLEBRE POR SUA CORDIAL IRONIA.

Dessa forma, Péricles aceitou a sugestão da charge na revista O Cruzeiro e bolou um personagem franzino, baixo, com rosto redondo, nariz fino e bigode também fino, com um olhar ao mesmo tempo frouxo e insensível, e um jeitão falsamente gentil.

Através das encrencas que o Amigo da Onça "simpaticamente" arruma para outras pessoas, a charge fez sucesso estrondoso por representar uma crítica à hipocrisia social, ao jogo das aparências observado em vários costumes sociais. Em muitos casos, o Amigo da Onça também aproveitava os fatos jornalísticos para, através de seu comportamento boçal, expressar suas críticas. Uma delas, por exemplo, mostrava o Amigo da Onça sugerindo o cantor negro Nat King Cole a fazer apresentação na Cidade do Cabo, na África do Sul, então sofrendo regime de apartheid.

O sucesso crescente, no entanto, começou a incomodar Péricles, que também era compositor, além de ter sido boêmio quanto qualquer jornalista na época. Sem deixar outra marca profissional que não o Amigo da Onça, Péricles sofria por se "confundir" com o próprio personagem, através de muitas piadas que recebia.

Em 31 de dezembro de 1961, atormentado com as repercussões do seu personagem, Péricles escreveu dois bilhetes reclamando da solidão, e depois fechou todas as janelas de seu apartamento. Decidiu então ligar o gás de cozinha, não sem antes deixar outro bilhete avisando "Não risquem fósforos". Morreu asfixiado pelo próprio gás.

Com os desenhos que deixou, Péricles ainda pôde ter obras do Amigo da Onça publicadas na revista O Cruzeiro até fevereiro de 1962. Depois o personagem passou a ser desenhado por outro cartunista da revista, Carlos Estevão (1921-1972), famoso pelo personagem Dr. Macarra, que, mesmo dentro do seu estilo, manteve o humor irônico do original. Na década de 80, o ator Chiquinho Brandão, já falecido, interpretou o Amigo da Onça no teatro. O cartunista Jal chegou a fazer sua série com o personagem, mas dentro de uma linguagem bem diferente através de historietas em quadrinhos publicadas em jornais.

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